Foi com uma certa surpresa que, ao percorrer o site da Assembléia Legislativa, li a notícia de que nesta sexta-feira (26) seria realizado em São Gabriel um debate sobre o zoneamento da soja no Rio Grande do Sul. Surpresa porque esse tema, zoneamento, incluiria necessariamente discussões sócio ambientais, o que convenhamos é um tema muito espinhoso desde os debates, ou melhor, embates envolvendo o Zoneamento da Silvicultura no Estado, e está praticamente ausente na pauta da Casa.
O objetivo da discussão proposta pela deputado Ernani Polo, presidente da Comissão de Agricultura, segundo o texto divulgado pela AL, seria, conforme afirmou, a construção de uma normatização definitiva para o zoneamento agrícola evitando dessa forma riscos climáticos para a cultura da soja na metade sul do RS. Hum, risco climático, só isso? E que fórmula seria essa? Será que apenas açudes aliviariam o problema? Ou novas áreas a serem desbravadas?
Minhas dúvidas se confirmaram, a discussão (mais uma vez) privilegiará apenas aspectos agrícolas e econômicos. Mais uma oportunidade perdida de trazer a pauta ambiental da marginalidade em que é colocada pela mídia e pelo agronegócio tradicional. Mais uma oportunidade que se perde de colocar na pauta, entre os setores do agronegócio gaúcho a necessidade de realizar um zoneamento sócio ambiental não apenas da soja mas também do arroz, produtos cultivados até a exaustão nestas paragens e que utilizam doses industriais (literalmente) de agrotóxicos sem respeitar limites da Áreas de Preservação Permanentes -APPs, principalmente no caso do arroz.
Este traz consigo uma herança do malfadado Pró-Várzea que propiciou o aterramento e a drenagem de banhados e várzeas com incentivo governamental. Para cada quilo de arroz produzido consumimos, em média, mil litros de água, recurso não renovável, que após sua “utilização” na lavoura retorna aos rios repletas de venenos, mais adiante captamos esta água para beber.
O que deveríamos discutir num zoneamento sério é sobre a real necessidade de destruirmos os campos nativos do Pampa, cuja vocação econômica e ecológica para a atividade pecuária já está mais que demonstrada. A sua substituição pela monocultura de soja representa um tiro no pé e reflete a miopia e a esperteza imediatista de alguns setores. Além do que defende o deputado, o regramento é fundamental para dar segurança ao Bioma Pampa, que segundo dados do IBGE é o bioma brasileiro mais ameaçado.
Também é fundamental que produção agropecuária agregue outras considerações e conceitos para uma produção mais saudável e que respeite os limites dos nosos recursos naturais e a nossa saúde. Já basta a imagem que muitos tem de nós, gaúchos, como autênticos gafanhotos, queimando e cortando tudo ao seu redor, fama conquistada pelo rastro de destruição deixado país afora.
Esse é o desenvolvimento necessário e de uma única via? E o espaço para a agroecologia para o respeito as leis ambientais?
Até quando seguiremos ouvindo que arroz não dá em árvore como ironiza a líder da CNA, Kátia Abreu?
Eu também quero segurança para consumir e comprar, sem necessitar perder o pouco do Pampa e da Mata Atlântica que ainda nos resta e sem consumir produtos empestados de tudo quanto é veneno. Acho que essa discussão tem que ser encaminhada pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente, que através da Fepam conseguiu, apesar das críticas furiosas e das audiências públicas hostis aos seus técnicos, levar adiante o zoneamento da Silvicultura.
Aliás, apesar de todo tipo de tragédias e catástrofes ambientais, por todo lado, já temos deputado achando que o zoneamento da Silvicultura é muito restritivo. Dá para acreditar? É um retrocesso atrás de outro. Temos que avançar nas discussões técnicas e políticas para garantir uma produção com mais qualidade e valor, sem descuidar dos nossos recursos naturais e ficar de olho em quem acha que regramentos só valem para os outros e que o lucro é garantia de paz no campo.
(*) Jornalista


on Oct 28th, 2012 at 1:31 am
Tem é que fazer o ZEE – Zoneamento Ecológico-Econômico e parar com essa bobagem de fazer zoneamento ambiental para trocentas atividades econômicas.
on Oct 28th, 2012 at 5:50 pm
O Zoneamento Ecológico Econômico é sim um excelente instrumento de gestão e planejamento que deveria ser a prioridade da SEMA.O primeiro único trabalho de planejamento realizado no Estado foi o da Fepam para o Litoral Norte e lançado há mais de 10 anos por ocasião da criação da SEMA.
A pergunta certa é porque não foi implementado um modelo semelhante e único para todo o Estado? Para realizar o da Silvicultura as pressões foram imensas e quase instransponíveis.Imagina bancar um zonemaneto único para soja, arroz, silvicultura, pecuária.Que governo tem força (e interesse ecológico-econômico) para bancá-lo?
on Oct 28th, 2012 at 9:51 pm
Com a ditadura que temos nos jornais e tvs não se vê nenhuma matéria abordando esses temas ambientais. Se a Ana amélia tomar conta dessa discussão aí sim a vaca vai pro brejo. A única coisa que importa é lucro pro agronegócio.
on Oct 29th, 2012 at 11:05 am
Mas o que se pode esperar de um povo que planta imensos blocos estéreis de árvores exóticas em cima de campo nativo (apesar da sua vocação pra pecuária) e migra pra Amazônia, pra botar abaixo a floresta e plantar…. pasto?? Alguém entende esse despropósito? Enquanto os commodities nortearem o planejamento do uso do solo, os “gafanhotos” vão continuar a engolir a biodiversidade, aniquilar solos e águas, endividar produtores decentes e envenenar toda a gente. E a fome? Ah… os culpados por ela são os ambientalistas, que insistem em manter improdutivas áreas de proteção ambiental…
on Nov 3rd, 2012 at 8:23 am
Uma pena o que está acontecendo no Pampa hoje, como nova fronteira agrícola para o eucalipto e a soja, principalmente. Infelizmente, o mesmo já vem acontecendo há mais tempo nos Campos de Cima da Serra. Já que a proposta de um Zoneamento Ecológico-Econômico para o RS ou o Pampa não passa hoje de uma miragem, o mínimo que os governos deveriam fazer é estabelecer políticas públicas de apoio à pecuária sobre campo nativo. Está mais do que provado cientificamente que a criação de gado é plenamente compatível com a conservação dos nossos campos e que a pecuária é atividade chave para a sua manutenção. E nossos pecuaristas deveriam ser reconhecidos e recompensados por isto.